Uma questão de respeito

Uma questão de respeito

Tive a sorte de dar os primeiros passos dentro da cozinha com a minha avó Lydia, ela era a paciência em pessoa, já falei dela em outras oportunidades, mas o mais importante de todo o aprendizado eu só pude perceber nas entrelinhas muitos anos depois, a necessidade de respeitarmos o alimento durante o seu preparo.

Não esperem que eu vá falar sobre algum tipo de ritual ou algo assim. Quando ela fazia bife à milanesa um bife só era empanado quando o primeiro já estava no fogo, isso fazia com que a carne não “chupasse” a farinha de trigo e a casquinha continuava solta. Posso garantir que foi o melhor bife à milanesa que eu comerei durante toda a vida.

Outros exemplos não faltam, o molho de tomate que ficava horas no fogo e os cortes dos ingredientes que entravam nas receitas dos antepastos então, moedores e picadores? Nem pensar. A feijoada ia pro fogo na véspera e o seu cheiro tomava conta da casa por horas e horas.

O meu trabalho de consultor gastronômico tem muito de professor, a diferença são os alunos. Quando entro em uma cozinha que já funciona isso me dá um pouco mais de trabalho, pois a maioria dos cozinheiros e auxiliares traz anos e anos de vícios na bagagem, Quando são aulas ou estamos montando um restaurante esse aprendizado é mais tranquilo.

Sempre dou o exemplo de uma carne assada, se ela precisa de 60 minutos de forno à 180° C para chegar ao seu melhor ponto, 40 minutos à 200° C não vão fazer o bem à carne, nem 80 minutos à 150° C, faz sentido isso?
Estenda esse conceito à tudo mais dentro de uma cozinha, deixar apurar em fogo baixo aquela feijoada ou o famoso sugo di pomodoro, deixar as carnes no tempero e quando entrar na cozinha entrar com bons sentimentos.

Se eu falar de amor na cozinha vai parecer que estou fazendo propaganda de alguma marca de tempero, mas o melhor ingrediente para um bolo solar e um pão não crescer é entrar com sentimentos ruins na cozinha, por que isso acontece?

De coração eu digo que não faço idéia, mas que acontece, acontece então evitar isso é fácil, experimente entrar na cozinha de coração aberto e cozinhar com sentimentos positivos pra quem comerá a sua preparação, depois perceba a diferença de um dia comum.

Sobre o Autor:
Ronaldo Rossi

Ronaldo Rossi

http://www.ronaldorossi.com.br

Ronaldo Rossi é chef de cozinha e sommelier de cervejas da Cervejoteca (www.cervejoteca.com.br)

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